quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010



Álvaro de Campos

Saí do comboio,

Saí do comboio,

Disse adeus ao companheiro de viagem

Tínhamos estado dezoito horas juntos..

A conversa agradável

A fraternidade da viagem.

Tive pena de sair do comboio, de o deixar.

Amigo casual cujo nome nunca soube.

Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas...

Toda despedida é uma morte...

Sim toda despedida é uma morte.

Nós no comboio a que chamamos a vida

Somos todos casuais uns para os outros,

E temos todos pena quando por fim desembarcamos.

Tudo que é humano me comove porque sou homem.

Tudo me comove porque tenho,

Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,

Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.

A criada que saiu com pena

A chorar de saudade

Da casa onde a não tratavam muito bem...

Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo.

Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.

E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010


Nós, ciganos, temos uma só religião: a da liberdade
Em troca desta renunciamos à riqueza, ao poder, à ciência e à glória
Vivemos cada dia como se fosse o último
Quando se morre, deixa-se tudo: um miserável carroção como um grande império
E nós cremos que nesse momento é muito melhor ser cigano do que rei.
Nós não pensamos na morte. Não a tememos – eis tudo.
O nosso segredo está no gozar em cada dia as pequenas coisas que a vida nos oferece
e que os outros homens não sabem apreciar; uma manhã de sol, um banho na torrente, o contemplar de alguém que se ama
É difícil compreender estas coisas, eu sei
Nasce-se cigano.
Agrada-nos caminhar sob as estrelas.
Contam-se estranhas histórias sobre ciganos
Diz-se que lemos nas estrelas e que possuímos o filtro do amor
As pessoas não acreditam nas coisas que não sabem explicar-se
Nós, pelo contrário, não procuramos explicar as coisas em que acreditamos.
A nossa vida é uma vida simples, primitiva: basta-nos ter por tecto o céu, um fogo para nos aquecer e as nossas canções quando estamos tristes.

Vittorio Pasqualle Spatzo (poeta cigano)